Casos de Aids na faixa etária de 10 a 19 anos preocupam médicos do AM

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No Dia Mundial de Luta contra a Aids, dados da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) trouxeram a preocupação dos especialistas sobre o número de casos da doença entre jovens no Amazonas. De 2007 a outubro deste ano, foram registrados 120 casos de HIV na faixa etária de 10 a 19 anos, no estado. A contaminação desse segmento populacional está associada ao ato sexual sem prevenção, dizem os médicos.

Segundo indicadores da Coordenação Estadual de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/Aids) e Hepatites Virais, que é vinculada à FMT-HVD, neste grupo, a infecção já acontece, geralmente, através do ato sexual, configurando a chamada de transmissão horizontal.

Conforme a diretora-presidente da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Graça Alecrim, um dos grandes desafios atuais das autoridades de saúde pública é despertar o interesse do jovem, que começa a vida sexual cada vez mais cedo, a usar o preservativo, que ainda é a medida mais simples e eficaz contra a Aids.

Outra preocupação dos especialistas que atuam na prevenção do HIV refere-se aos casos diagnosticados na faixa etária de 20 a 49 anos. Esse segmento concentra 86,8% do total de notificações de Aids realizadas no Amazonas, no período de 2007 a outubro de 2012, acompanhando o perfil epidemiológico das demais regiões do Brasil.

Atualmente, estão em tratamento no Amazonas mais de 5 mil pessoas vivendo com HIV, considerando os pacientes atendidos na FMT-HVD e nas unidades de distribuição de medicamentos no interior.

Contaminação na gestação
Indicadores da FMT-HVD apontaram que de 1986 a outubro de 2012, 184 crianças foram infectadas pelo vírus HIV, no Amazonas. O total de casos registrados neste mesmo período foi de 7.383 casos, considerando todas as faixas etárias. Embora represente apenas 2,5% do total de diagnósticos no estado, especialista que acompanha a disseminação e prevenção do vírus, avaliou que a incidência de novas contaminações em bebês poderia ser menor.

A médica pediatra e infectologista que atua FMT, Solange Dourado de Andrade, explicou que a contaminação do vírus da mãe para a criança é chamada de transmissão vertical. A especialista afirmou que é possível reduzir em mais de 80% os riscos infecção do HIV desse grupo.

“É possível evitar essa transmissão do vírus mesmo a mãe estando infectada. Basta ela receber a medicação durante a gestação, na hora do parto e o bebê também ser medicado durante 45 dias, há possibilidade de reduzir em mais de 80% o risco dessa criança nascer com HIV”, assegurou.

Entretanto, para realizar esse acompanhamento e prevenir novas contaminações é imprescindível o diagnóstico do HIV ainda no início da gestação. “Por isso, é importante descobrir se a grávida tem HIV através dos testes, podendo assim evitar a transmissão para o feto e futuro bebê. Esses bebês também não podem ser amamentados no seio com leite materno da mãe infectada, porque ele poderá ser contaminado”, esclareceu Solange Dourado.

Iniciativa
O portador adulto do vírus HIV vivencia inúmeros desafios após o diagnóstico da Aids. Para as crianças que foram infectadas pelas mães as dificuldades e cuidados são ainda maiores. A partir da descoberta da doença, o apoio para lidar com o preconceito da sociedade é um dos fatores para a continuidade da vida normal. Em Manaus, a Casa Vhida há mais de uma década presta gratuitamente assistência de saúde e social, às crianças e adolescentes portadores do HIV no Amazonas.

Fundada em 17 de dezembro de 1999, a Casa Vhida como é conhecida a Associação de Apoio à Criança com HIV (AACH), teve início a partir de um grupo de profissionais da área da saúde, envolvidos no atendimento de crianças portadoras do HIV, na então Fundação de Medicina Tropical do Amazonas. Em 2012, a instituição completa 13 anos de atuação assistencial.

Depois de mais de uma década do início do trabalho, a integrante do grupo que fundou a Casa Vhida e atual diretora da instituição, a médica Solange Dourado de Andrade, lembra-se das inúmeras situações marcantes ao longo da existência da entidade. Ela apontou como a mais impactante o caso de atendimento das primeiras crianças.

“Eram três irmãos, sendo que um dos meninos e a menina tinham HIV, já o outro irmão não era infectado. A Casa Vhida foi fundada justamente por causa deles, porque a mãe das crianças faleceu e eles foram recolhidos. Então trabalhamos toda a casa para eles com detalhes do quarto rosa da menina e azul para os meninos. A partir deles que o trabalho iniciou e continuou”, relembrou Solange Dourado.

Segundo a médica, aos 17 anos a menina morreu porque não tomava a medicação corretamente. Já os outros dois irmãos, o com HIV e o sem, permaneceram na instituição até atingir maioridade e seguem com vida normal atualmente.

“Para nós foi importante a história deles conosco porque mostra exatamente como é o HIV. Quem toma o remédio direito e cumpre com as recomendações consegue sobreviver, caso contrário não consegue como a menina. Ela ficou para sempre nas nossas lembranças e até hoje guardamos as coisas dela na Casa Vhida por ser um símbolo do primeiro atendimento”, disse.

Assistência
A Casa Vhida oferece uma série de serviços, norteados pela missão de prestar assistência para crianças com HIV e ajudar a evitar a contaminação dos parentes não infectados. A instituição proporciona apoio em todas as áreas de enfrentamento da doença através dos suportes de saúde, nutrição, social e psicológico. Além disso, a Casa Vhida trabalha com lazer e capacitação dos jovens por meio de oficinas profissionalizantes (Introdução Digital, informática, artes manuais e gastronomia).

Atualmente, a Casa Vhida atende um total de 868 pessoas: 204 crianças e adolescentes com HIV; 620 bebês expostos ao vírus, mas sem confirmação de contaminação; e 44 irmãos crianças e adolescentes daqueles que estão com HIV, no entanto, não foram infectados pelo vírus.

“Até os dois anos de idade não sabemos se essas crianças filhos de mulheres com HIV estão contaminados. Diante disso, o nosso foco com os não infectados é prestarmos auxílio na redução da transmissão vertical, que consiste na contaminação da mãe para o filho. Para evitar que seja transmitido o vírus da Aids para eles, além da prevenção com medicamentos doamos leite em lata para evitar que esses bebês sejam amamentados no seio com leite materno, contraindo o HIV”, destacou Solange Dourado.

Abandono

Após o parto do filho algumas mães com HIV abandonam o bebê, temendo que ele também esteja infectado. Esse grupo é um dos acolhidos pela Casa Vhida. “As crianças e adolescentes assistidos são encaminhadas à Casa Vhida pela Fundação de Medicina Tropical, que é o local de referência no atendimento com pacientes com HIV. Entre os diversos tipos de situação, atendemos jovens abandonados pela família e crianças órfãs. Já aconteceu até de uma mãe abandonar o filho dentro da ambulância, quando estava sendo levada para casa, fugindo e deixando a criança. Porém, a maioria que atendemos tem família e são encaminhadas para a instituição para receber um suporte”, explicou a fundadora da instituição.

As crianças sem família ou abandonadas permanecem residindo na casa de apoio, depois de comunicado ao Juizado de Menores, que acompanha todos os casos. “Essas crianças ficam abrigadas lá até o juizado tomar uma decisão pela adoção. Mas até hoje todos os órfãos que atendemos conseguimos juntamente com o Juizado de Menores, famílias para adotá-los. Não houve nenhum caso que isso não tenha acontecido”, enfatizou Solange Dourado.

Para manter os serviços a instituição tem um custo anual de R$ 1,3 milhão. As despesas são custeadas através de parcerias com instituições governamentais e não-governamentais, com apoio de fundações internacionais, empresas e doações.

Fonte: G1 – AM