Reportagem da revista Caros Amigos mostra momento crítico na resposta à aids no Brasil

A revista Caros Amigos deste mês traz reportagem sobre o enfraquecimento do Programa brasileiro de Aids, reconhecido mundialmente pela eficiência e ousadia no enfrentamento à epidemia.

Segundo texto da jornalista Marina Pecoraro, a resposta brasileira contra a doença “está passando por um momento difícil”. Em entrevista à revista, o pesquisador da Faculdade de Medicina da USP e ex-coordenador do Programa de Aids do Ministério da Saúde Alexandre Grangeiro diz que “o Brasil está na contramão do processo de fim da pandemia. Há uma tendência de aumento dos casos de Aids e de óbito em decorrência da Aids, e estamos muito longe de acabar com a transmissão vertical do HIV (da mãe para o filho), apesar de termos todas as ferramentas disponíveis”.

Grangeiro ainda comenta o aumento do número de óbitos em algumas regiões do país como norte, sul e nordeste. “Os dados mostram que, nessas regiões, morre mais gente do que antes da entrada do coquetel, em 1996. O diagnóstico tardio do HIV é outro grande problema. Cerca de 30% das pessoas que chegam ao SUS já estão muito doentes e um em cada 20 vai morrer em até 20 dias após o diagnóstico”.

A reportagem ressalta que “a epidemia no Brasil é concentrada nos grupos mais vulneráveis, como homens que fazem sexo com outros homens, usuários de drogas e pessoas em situação de rua. No campo da prevenção, o País continua focando as ações exclusivamente no uso de camisinha. O conjunto de métodos de prevenção capazes de evitar a infecção na cadeia de transmissão tem passado ao largo das discussões, e tal posição vem contribuindo para o aumento de novos casos.”

O enfraquecimento das ONGs que lidam com Aids é outro problema apontado pelo pesquisador da Faculdade de Medicina. Ele ressalta que isso está relacionado à diminuição dos recursos destinados, que tem forte impacto na prevenção entre os grupos mais vulneráveis. “Essas organizações sempre foram as responsáveis pela inovação das ações de prevenção. O Estado nunca conseguiu chegar nessa população, todo o know-how sempre foi das ONGs”, afirma Grangeiro, que prossegue relatando os desafios enfrentados pelo Programa no campo da assistência, cuja rede não cresceu na mesma proporção que os casos de Aids. “ Não se expandiu e foi depauperada nos últimos anos. Faltam médicos, psicólogos e toda a equipe multidisciplinar que foi referência no atendimento aos portadores do HIV. Não consegue acolher os novos casos e nem tratar adequadamente os que estão matriculados”.

O texto revela ainda uma pesquisa realizada recentemente pela Comissão Municipal de Aids na rede assistencial do município de São Paulo que mostrou uma carência de 43 infectologistas na cidade. O levantamento mostrou também que o tempo de espera para marcar a primeira consulta em um serviço especializado em aids em São Paulo varia entre três e cinco meses.

“A experiência acumulada nos trinta anos de luta contra aids não pode ser jogada fora. É preciso que o governo retome o diálogo com todas as áreas envolvidas no combate à doença , profissionais de saúde, ativistas, pessoas vivendo com aids e mídia”, salientou a fundadora e editora executiva da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli.

A revista termina a reportagem relacionando uma série de alternativas de prevenção ao HIV que trazem otimismo no combate à Aids, tais como a profilaxia pré-exposição (PREP), pós-exposição (PEP) e microbicidas, entre outros.

Fonte: Agência de Notícias da AIDS

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