Vítima obscura da Aids

Um composto que ajuda a salvar milhares de vidas todos os anos pode provocar sérios prejuízos à saúde auditiva de crianças e jovens. Pesquisa realizada na Universidade de São Paulo (USP) apontou que o remédio lamivudina (3TC), utilizado no tratamento da Aids, aumenta em 5,8 vezes as chances de um paciente com HIV nessa faixa etária sofrer perda na audição.

O trabalho, realizado pela fonoaudióloga Aline Medeiros da Silva em seu doutorado, tinha como objetivo avaliar os prejuízos que o HIV traz para a audição de crianças e jovens. A pesquisa confirmou ainda que as perdas auditivas nesses pacientes também estão associadas a uma forma grave de otite, muito comum em quem tem HIV/Aids.

O estudo foi realizado com 106 crianças e adolescentes entre cinco e 19 anos que têm HIV e estão em tratamento contra o vírus. Para saber quais medicamentos eram utilizados e as durações das terapias, a pesquisadora analisou os prontuários dos pacientes. Além disso, todos passaram por uma avaliação auditiva, incluindo um exame de audiometria tonal, que verifica a qualidade da audição.

Os resultados desse teste foram enquadrados em duas classificações de surdez: Asha, que registra qualquer pequena alteração como perda auditiva; e Biap, menos rigorosa. Segundo esta última, 35,8% dos jovens analisados apresentaram perda de audição. Considerando os critérios da Asha, esse percentual sobe para 59,4%. Esses valores são equivalentes aos verificados em pesquisas anteriores. A ocorrência de problemas de audição afeta entre 2% e 24% das crianças e dos adolescentes saudáveis.

Com base na classificação Biap, o estudo constatou que 43,8% dos jovens que tomavam lamivudina sofreram perda auditiva. Esse percentual foi de 9,5% entre os que não usavam o medicamento.

Lamivudina x AZT

Os efeitos prejudiciais da lamivudina parecem atingir apenas crianças e adolescentes. Em estudos anteriores feitos com adultos, o medicamento não teve relação com danos aos ouvidos dos pacientes, mas a zidovudina (AZT), também usada no tratamento da Aids, sim.

“O motivo para isso pode ser a diferença entre as estruturas das orelhas, já que as dos jovens ainda estão em formação”, sugere Medeiros da Silva. Em sua pesquisa, o AZT era consumido por quase todos os pacientes, o que impossibilitou a análise do impacto dessa droga sobre a audição.

“O grande diferencial desse estudo foi ter trabalhado com jovens que utilizavam diversos remédios ao mesmo tempo”, afirma a pesquisadora. “Outros trabalhos haviam observado somente as relações entre um fármaco específico e a saúde do ouvido e quase sempre em adultos.”

Segundo a fonoaudióloga, ainda não é possível saber o motivo da relação entre a lamivudina e a ocorrência de perdas auditivas. Ela afirma que pretende realizar novas pesquisas utilizando um exame mais detalhado que a audiometria, que permite ver particularidades de cada região do sistema auditivo.

Outro fator responsável pela grande prevalência de perda auditiva em jovens com HIV é a ocorrência de otite média supurada, infecção que forma edemas, provoca secreção de pus dentro das orelhas e pode causar o rompimento dos tímpanos. “As otites são muito comuns em crianças e adolescentes, mas dificilmente se tornam tão graves em pessoas que não têm HIV/Aids”, afirma Medeiros da Silva.

Segundo a pesquisadora, essa forma severa de otite afeta apenas 5% da população saudável e cerca de 25% das pessoas com HIV/Aids. Essa maior suscetibilidade deve-se à debilidade do sistema imunológico e aos danos diretos às células receptoras de som causados pelo vírus. A ocorrência da infecção no ouvido aumenta em 5,7 vezes o risco de um jovem com HIV ter perda auditiva.

Considerando a classificação Biap, 69,2% das crianças e dos adolescentes analisados que tiveram otite média supurada sofreram prejuízos à audição, enquanto apenas 25% dos pacientes sem a infecção apresentaram perdas desse tipo. Entre os que tiveram essa forma grave de otite e também faziam uso de lamivudina, 70,8% desenvolveram problemas auditivos.

Cuidado constante

Medeiros da Silva ressalta que, embora pessoas com HIV/Aids mantenham uma rotina de acompanhamento médico, a saúde auditiva acaba ficando em segundo plano. Prova disso é que apenas 27,4% das crianças e dos jovens avaliados na pesquisa relataram problemas relacionados à audição, apesar de o percentual de perdas comprovadas ter sido bem maior.

“Normalmente, quando um jovem tem algum sintoma ou queixa auditiva, outros problemas estão acontecendo ao mesmo tempo, como doenças no fígado, que, naturalmente, chamam mais atenção”, diz.

Por isso, a fonoaudióloga recomenda que crianças e adolescentes com HIV façam um acompanhamento constante da saúde auditiva. “Se os exames de rotina forem realizados a cada seis meses, por exemplo, ficará muito mais fácil impedir ou amenizar as possíveis perdas auditivas”, conclui.

Fonte: Ciência Hoje

(Visited 7 times, 1 visits today)