O significado de uma casa – Projeto Sol Nascente / CE

O abrigo infantil do Projeto Sol Nascente tornou-se maior e ampliou os sonhos e o existir das crianças soropositivas e órfãs

Muitas vezes, o que parece pouco tem um enorme significado. Veja-se a sala de psicologia, que passou a existir com a reestruturação da unidade infantil da Casa de Apoio Sol Nascente, no Condomínio Espiritual Uirapuru (Castelão), em março de 2010. “É um espaço físico e que, naquele momento em que estou lá, estou tratando de sentimentos… As crianças falam muito: coisas do dia a dia, a doença, comportamento, amizade”, apresenta a psicóloga da instituição, Luciana de Souza Rodrigues. “As pessoas respeitam esse espaço e as próprias crianças sabem, agora, para aonde estão indo”, completa.

Antes da reforma e ampliação da unidade – possível com uma campanha do Grupo de Comunicação O POVO, que arrecadou doações e atenção para o Projeto Sol Nascente -, as crianças falavam sobre a AIDS e a morte dos pais no quintal de uma casa alugada, debaixo de um pé de árvore. “Sem nenhuma reserva. Vinha outra criança com a bicicleta e passava pelo meio… Eu pegava uma mesinha e uma cadeira de plástico, utilizava poucos recursos porque o vento vinha e levava, caía no chão e sujava na areia. As formigas subiam no meu pé”, lembra a psicóloga.

Na casa alugada, prestes a virar esquecimento, para onde a dezena de crianças abraçadas pelo projeto se mudou depois das chuvas de 2009, não havia espaço para brincar e, muito menos, para crescer. Paulinhos e Beatrizes se atrofiavam na condição de soropositivos, órfãos ou vítimas de abuso sexual. Eram um amontoado de idades, de zero a 12 anos, dentro de caixas de papelão de roupas e calçados. “Todos os de quatro anos vestiam as roupas (para crianças) de quatro anos”, reconstitui a coordenadora do abrigo infantil, Herika Melo.

A identidade ganhou espaço na casa nova. “Aqui é o quarto dos meninos. E essa é a minha cama”, reina um dos Paulinhos da instituição. Do lado de lá, no quarto de bonecas e maquiagens, uma das Beatrizes se agarra ao futuro: “Esse é o meu caderno, minha pasta, minha agenda”. “Hoje, elas têm definido o que é delas. As roupas são nomeadas, cada uma tem um local no guarda-roupa”, observa Luciana.

O cuidar

Muitas vezes, o que parece insignificante tem a força de uma revolução. “Os mais velhos já arrumam as coisas deles. ‘Ah, tia, só gosto do meu calção desse lado, não mistura as blusas!'”, sublinha a coordenadora do abrigo infantil, HerikaMelo. Assim, meninos e meninas vão afirmando o seu jeito de ser e de estar no mundo. Para Herika, a principal mudança que se deu da casa alugada para o novo abrigo foi “a integridade… Antes, até a cura (das doenças oportunistas) era mais difícil”.

E integridade é uma palavra grande. Nela, cabem as fotografias do aniversário e do melhor amigo, que um dos Paulinhos colou no armário dele. Cabem os sonhos que o menino havia deixado de sonhar. “Antes, a gente dormia no colchão no chão. Só tinha sonho ruim. Eu gosto de sonhar com os anjos”. Na palavra integridade, que as crianças começam a soletrar, cabe, enfim, um ser humano inteiro.

E agora?

ENTENDA A NOTÍCIA

A esperança que reergueu e transformou o abrigo infantil alimenta o desejo de construção de uma casa apropriada aos adultos sequelados pela AIDS e que, negados pela família, ficam à deriva depois da alta hospitalar

SERVIÇO

PROJETO SOL NASCENTE

Endereço: Alberto Craveiro, 222, Castelão (no Condomínio Espiritual Uirapuru)

Doações em dinheiro: conta corrente 11235-6, agência 3646-3, Banco do Brasil.

 

SAIBA MAIS

Tudo recomeçou quando as chuvas de 2009 tornaram inabitável a antiga casa das crianças do Projeto Sol Nascente. O mofo descoloria sonhos e dormitórios, os cupins ameaçavam brinquedos e estrutura. Na época, 11 meninos e meninas soropositivos ou órfãos, abrigados no projeto, mudaram-se para uma casa menor e alugada.

Em outubro daquele ano, o Grupo de Comunicação O POVO iniciou uma campanha para reconstrução do abrigo de Paulinhos e Beatrizes. Na época, o projeto calculava R$ 100 mil para refazer a estrutura física interna. Graças a doações da população e ao comprometimento da Prefeitura e de instituições, como Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal, a reforma já começava no mês seguinte.

Ana Mary C. Cavalcante: anamary@opovo.com.br

Fonte: O POVO (CEARÁ)

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